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Caminhos e obstáculos para lidar com os crescentes desastres ambientais

Marcos Buckeridge e José Eduardo Viola manifestam sua opinião – nem sempre convergente – acerca da colaboração global para o enfrentamento das mudanças climáticas

Com as mudanças climáticas ganhando cada vez mais força, pautas ambientais e de desaceleração econômica adquirem uma importância sem precedentes. Elas, no entanto, dependem de um esforço conjunto e global. O vice-presidente do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA), Marcos Buckeridge, antes de tudo, ressalta a urgência do tema: “A mudança climática está indo tão rápido, que aquilo que nós esperávamos para 2050 agora nós temos que pensar em 2040 e eu acredito que logo nós vamos ter que começar a pensar para 2030”.

Marcos Buckeridge – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Marcos Buckeridge – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Uma referência mundialmente reconhecida são os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU). Com base neles, núcleos de pesquisa propõem políticas e inovações sociais e científicas para solucionar o problema. Isso é inclusive um dos ramos de estudos do IEA.

Passar da pesquisa local para a resolução mundial, no entanto, é bem complexo. Uma das metas mais concretas atualmente é a da Comissão Europeia de se tornar neutra de carbono até 2050. O professor afirma que congregações do tipo podem “acelerar o processo de tomadas de decisão”, sendo uma via para se estabelecer um plano organizado.

Ele explica: “Se nós tivermos conjuntos de governo que concordem entre si e que trabalhem em conjunto, como acontece com a Comunidade Europeia, o sistema fica mais simples, os ganhos e perdas ficam mais claros”. O alto investimento e o comprometimento que as medidas exigem são motivo de cautela por parte dos governos.

Por isso, ele ressalta a importância de tratados internacionais, como o Acordo de Paris, mesmo que atualmente eles sejam negligenciados. Definindo ações objetivas e conjuntas, “o grupo vai pensar assim: ‘Eu vou perder um pouco aqui, você perde um pouco ali, mas no fim das contas, todos nós vamos ganhar’”, comenta o especialista.

Mitigação e adaptação

Já Eduardo Viola, professor do mesmo instituto e especialista em política internacional, traz visões mais pessimistas. Primeiro, ele faz a diferenciação entre políticas de mitigação e de adaptação. Mitigação é reduzir emissões de carbono, reflorestar e qualquer medida que reduza o aquecimento global. Adaptação é, uma vez posto o problema, propor medidas para ser menos afetado por ele.

José Eduardo Viola – Foto: IEA/USP
José Eduardo Viola – Foto: IEA/USP

Segundo ele, “o que vai ter é o aumento da política de adaptação, porque aí não tem necessidade de cooperação global”. A prevenção de desastres locais deve ganhar força na política, mas o esforço para de fato mitigar as mudanças climáticas, não necessariamente. “A política de adaptação repercute diretamente sobre o local; a de mitigação, não, ela depende diretamente da dinâmica do mundo”, explica Viola.

O que ele alerta é que países vão querer entrar na “carona” de outros, esperando que estes façam o processo de mitigação enquanto a preocupação local é de adaptação. Do ponto de vista de perpetuação do poder, adaptar-se às mudanças faz mais sentido do que solucioná-las.

Cenário pessimista

O professor destrincha a situação mais além. Não só há o descaso com o aquecimento global, como há também casos de ativo interesse nisso. Ele dá o exemplo da Rússia, que, segundo ele, tem sido uma “predadora” do meio ambiente. “Parte da elite russa acredita que vai ganhar com a mudança climática porque vai aumentar a superfície de terras agricultáveis na Sibéria (região fria e inóspita no norte do país)”, complementa Viola.

A China e a Índia são outros que continuam emitindo muitos poluentes. Os Estados Unidos, que já não são muito verdes, podem piorar ainda mais se Donald Trump for eleito. O cenário, conforme ele comenta, é dramático. O efeito descrito é de uma espiral, em que cada país quer apenas se adaptar às mudanças, e a situação piora cada vez mais. Para o professor, países e grandes empresas continuarão competindo entre si, e é difícil imaginar uma cooperação global com esses interesses postos.

Fonte: Jornal da USP.
Mídias: Marcos Buckeridge – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens; e José Eduardo Viola – Foto: IEA/USP

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