COVID-19: Masculina ou Feminino?

por Laércio Becker (*)

Como estamos vivendo um período monotemático, em que todos só falam sobre o coronavírus, resolvi mudar de assunto e conversar sobre língua portuguesa: qual é o gênero gramatical de “Covid-19”? (Argh!)

Quem pode nos ajudar nessa questão é Evanildo Bechara, que há muito tempo publicou dois artigos sobre a questão do gênero dos estrangeirismos. Ele disse ser recomendável adotar, em português, o mesmo gênero que a palavra tem em sua língua original. Lembrando que, em casos de língua com três gêneros (como o latim e o alemão), o português trata o neutro como masculino.

No entanto, ele cita situações curiosas em que nosso idioma fugiu a essa regra e adotou gênero diferente de outras línguas, p.ex.

• em latim errata é neutro e em português é feminino;
• em latim appendix é feminino e em português “apêndice” é masculino;
• em francês, annales, banque e étude são femininos e em português “anais”, “banco” e “estudo” são masculinos;
• em alemão Blitzkrieg é masculino e em português a redução “blitz” é feminina;
• em alemão Oktoberfest é masculino e em português é feminino (por ser o gênero de “festa”).

No caso, Covid-19 é o acrônimo inglês para: corona virus disease, “doença do coronavírus”; o número 19 indica o ano de surgimento, 2019. As publicações oficiais – sobretudo decretos – estão divergindo. Umas chamam de “o Covid-19” e outras, de “a Covid-19”.

Quem usa o masculino provavelmente se pauta pela palavra “vírus” e seu derivado, o “coronavírus” (aliás, um anglicismo sintático; em português a sintaxe seria “vírus corona”). Importado do inglês, onde apresenta gênero neutro, tem origem no latim, onde corona (coroa) é feminino e virus (sumo) é neutro.

Quem o trata pelo feminino provavelmente pensa em disease, “doença”. O fato de essa palavra ter, em inglês, gênero neutro, é uma falsa pista. A questão aqui é que, se Covid é um acrônimo, é natural que adote a regra de gênero das siglas e acrônimos: acompanhar o gênero da própria expressão que sofreu a acrossemia, p.ex.:

• a AACD porque é a Associação;
• o CRB e o CSA porque são os Clubes;
• o Detran porque é o Departamento;
• a ESG porque é Escola;
• o INSS porque é o Instituto;
• o SBT porque é o Sistema;
• o TRE porque é o Tribunal;
• a USP porque é a Universidade.
(Há exceções como “a Selic”, que é o Sistema, mas por elipse da palavra “taxa”.)

Desse modo, como Covid é acrônimo para expressão inglesa cuja tradução apresenta gênero feminino (“a doença do coronavírus”), “a Covid-19” parece ser a melhor solução.

(*) Laércio Becker
Autor do livro “O P-16 Tracker e a Aviação Embarcada”, publicado pelo Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (Incaer) em 2009, bem como do e-book “Do fundo do baú: pioneirismos no futebol brasileiro”, publicado no site Campeões do Futebol. Colaborador eventual da Seção do Arquivo Histórico da Brigada de Infantaria Paraquedista.
E-mail: laerciobecker@bol.com.br


Fontes
BECHARA, Evanildo. A gramática dos termos estrangeiros no português – 1 e 2. In: Na ponta da língua. 2º ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. v. 2, p. 170-6.

SARAIVA, F.R. dos Santos. Dicionário latino-português. 13ª ed. Belo Horizonte: Garnier, 2019. p. 310 e 1.282.

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