História da Roselândia 1929 – 1959

No Mundo das Rosas 

Há uma tradição no cultivo de rosa, em São Paulo, que se notabilizou quando, por volta de 1910, inúmeras variedades de rosas brasileiras, hibridadas pelo dr. Martins Fontes foram remetidas para a famosa mostra floral de bagatelle, um parque situado nos arredores de Paris. Nessa exposição as nossas rosas foram consideradas entre as mais belas das variedades apresentadas no começo do século XX.

O cultivo de rosas no Estado de São Paulo começou no ano de 1929, com a vinda dos irmãos Kurt e Hans Boettcher. Trouxeram eles de sua cidade natal – Erfurk, na Alemanha – a experiência de uma terra tradicionalmente conhecida como a “cidade das flores”, o maior centro floricultor da Europa.

Inicialmente Hans e Kurt se dedicaram a cultura especializada de dálias e hemerocális numa chácara no Jabaquara, em São Paulo. Todavia, ao tomarem conhecimento das possibilidades excepcionais que ofereciam, para o plantio de roseiras, as terras e o clima do então distrito de Itapevi, em Cotia, adquiriram lá, entre 1933 e 1934, uma gleba de 55 alqueires e se dedicaram ao cultivo da rosa em bases racionais e tecnocientíficas. Nessa ocasião, a empresa mudou de nome. De floricultura Jabaquara ficou sendo Floricultura e Pomicultura de Cotia. Na época não havia ônibus no local e a estação de trem era no centro do distrito de Itapevi, longe de onde se localizava.

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Os irmãos Boettcher supervisionam o trabalho de terraplanagem.
Irmãos Boettcher em frente a construção do prédio sede da Roselãndia.

Anos 1950

Após 30 anos de esforços, os irmãos Boettcher transformaram Itapevi no maior centro produtor de rosas do País, com ampla projeção fora do âmbito nacional, através de intercâmbio que mantem com produtores europeus e norte americanos.

Situada a 50 minutos da Capital paulista, por estrada de rodagem (asfaltada), via Cotia, a fazenda Roselândia é considerada a “pérola do cinturão verde de São Paulo”, devido à produção quantitativa e qualitativa de rosas, sendo o maior centro produtor do País. Graças ao cultivo de rosas da fazenda dos Boettcher, o Brasil figura hoje entre os cinco produtores mundiais de rosas, ao lado dos Estados Unidos, Alemanha, França e Inglaterra.

Cultiva-se atualmente em Roselândia 350 mil roseiras em 500 variedades, 100 pés de dália, gladíolos, Amarílis, estrelítzias, agapantos, hemerocális, gérberas, hortênsias, caládios (tinhorões).

Itapevi produz as rosas que enfeitam todo o Brasil. Do Amazonas ao Rio Grande do Sul, onde houver um jardim e nele houver uma roseira é quase certo que a muda ou estaca foi adquirida na fazenda Roselândia. A produção anual no que refere a rosas é, (como já vimos) de trezentos e cinqüenta mil pés, que corresponde a um lucro de dez milhões de cruzeiros para os seus proprietários.

A cultura da rosa, em Itapevi, ocupa uma área de aproximadamente 10 alqueires entre os viveiros e coleções de variedades. Os trabalhos exigidos nessa cultura são desempenhados por mais de oitenta pessoas. A região é acidentada. Tem inúmeras depressões, inúmeras várzeas. Mas foi inteiramente aproveitada. Em alguns pontos, onde funcionaram outrora olarias, foi necessário encher os buracos com terra trazida do mato.

Bastante exigente em matéria de adubação e planta de ciclo vegetativo perene, a rosa produz durante a maior parte do ano. O corte de suas flores e parte dos ramos, quando feito com certa intensidade, esgota suas reservas alimentares.

A vida efêmera da rosa contrasta com os cuidados exigidos no seu cultivo somados a longos anos de espera. Para fornecer mudas razoáveis são necessários três anos e meio de vida a uma roseira. Cada estaca corresponde a uma muda, um enxerto. O índice de perda da planta – cerca de 50% – torna mais dispendiosa ainda a sua cultura. Água não é problema pois só é necessária irrigação apenas nos primeiros dias de vida. Todavia, é fundamental a aplicação de inseticidas e fungicidas pois são inúmeros os insetos e fungos que atacam as roseiras, a principiar pela da “fumagina” até o irapuá ou abelha-cachorro (que se dá ao luxo de confeccionar suas casas com as folhas das roseiras). O uso de adubo químico e “composto” é outro fator fundamental para se obter uma boa floração de rosa.

Foto das Rosas na exposição de novembro/1959.

A maior ambição de um cultivador de rosas é conseguir uma variedade “extraordinária”. Embora possua inúmeras escalas de cores e formas, uma rosa vez por outra é considerada uma “espécie rara”; assim como surgem, desaparecem ao correr do tempo. Somente as “extraordinárias” se perpetuam, e se tornam célebres e conhecidas em todo o mundo. Mesmo em se tratando de uma “Happiness” (vermelho-carmesim) ou a “Sutter’s gold” (amarelo-ouro, alaranjada nas pontas e no reverso) que são as mais procuradas atualmente, desaparecerão com o surgimento de novas espécies. Basta dizer que nos últimos 20 anos apenas foram conseguidas seis variedades “extraordinárias” em todo o mundo.

As rosas de Itapevi são bem diferentes das demais nas suas finalidades, aliás finalidade única. Nascem e morrem na roseira. Não têm conhecimento da promiscuidade das jarras e do ambiente sufocante e asfixiante dos apartamentos. Não vão a festas, não comparecem a bailes de gala nem vão a funerais. Não rendem homenagens nem transmitem mensagens. Não enfeitam colos decotados nem coroam beldades. Nascem e fenecem ao sabor das brisas, ao frio de junho, ao calor de dezembro. Oferecem seus néctares ás abelhas e beija-flores. E inspiram cânticos de amor aos sabiás.

Foto de rosas da Roselândia publicada em fevereiro/1960 pelo periódico A Cigarra.

Festa das Rosas

Ao iniciar a cultura de roseiras, os Boettcher também imaginaram uma “Festa da Rosa”, á semelhança das realizadas na Alemanha. As primeiras, porém, não eram pomposas e nem oficiais; serviam, apenas para mostrar aos curiosos e aos poucos moradores da região, as novas variedades cultivadas e nelas não eram eleitas “rainhas”, nem “princesas”.

A primeira eleição para “rainha” foi realizada em 1951 quando foi eleita uma descendente de japoneses de nome Dayse. Depois foram eleitas entre outras as Srtas. Terezinha Nunes, Mariza Ferrari, Sueli Christianini e Darly Nicolaura Scornaienchi.

Visitantes, em novembro/1959, na Festa das Flores.

Da última vez, a comissão elegeu Eunice Bataglia, sobrinha do prefeito de Itapira; para “princesas” foram escolhidas então as Srtas. Ivani Belli e Clarice Arruda.

Uma comissão julgadora, presidida pelo Sr. Pedro Arinos, premiou as seguintes rosas, no certame que passou:
Classe híbrida de chá – 1º prêmio “Happiness”, em 2º “Tiffany” e em 3º “Diamond jubileo”.
Nas outras categorias foram premiadas as rosas “Spartan” (1º lugar), “Queen Elizabeth” (prêmio Nelson Natel), em 2º e “Independence” e na categoria das novidades tivemos, em 1º “Papillon rose”, em 2º “Rose Gauyand” e em 3º “Ballet”. Outras flores, como cactus, gloxínias, tinhorão, samabaia, cravos, antúrios, também foram premiados.

Fontes: A Cigarra Magazine – Fevereiro de 1960; Correio Paulistano de 1956; arquivos de Sidney Barbosa da Silva.

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