Na linha de frente da Pandemia

Profissionais de saúde: a arte de continuar remando num mar de incertezas

Matéria do Jornal da USP – Texto: Luiza Caires

Um profissional de saúde atuando com a covid-19 hoje no Brasil pode estar, dividindo a grosso modo, em dois grupos. De um lado, quem vive onde o sistema já colapsou, com a demanda ultrapassando a capacidade de atendimento – e aqui o cenário é de guerra, com as cenas a que temos assistido no Amazonas, Ceará e algumas regiões do Rio de Janeiro. Do outro, quem trabalha ouvindo o temporizador imaginário de uma bomba que ninguém sabe de fato quando – nem se – irá explodir.

Mesmo com as ações de preparação de alguns governos para a fase mais crítica, como montagem de hospitais de campanha e compra de respiradores, a insuficiência de dados por falta de testes torna quase impossível uma tarefa que já não seria das mais fáceis com eles disponíveis: saber a força com que a maior onda de casos – prevista pelo Ministério da Saúde para maio e junho – vai atingir o País. Para mostrar como é trabalhar neste mar de incertezas, a reportagem especial do Jornal da USP ouviu profissionais que falaram de seu cotidiano, dificuldades e expectativas.

Hospital de campanha – Foto: Divulgação/ Prefeitura de Taboão da Serra

Sobrecarga
Apesar de importantes, leitos de UTI e respiradores não são as únicas armas para enfrentar a covid-19 – na verdade, eles têm pouca valia sem profissionais de saúde habilitados para utilizá-los. Médicos e enfermeiros já relatam excesso de trabalho, principalmente em razão das crescentes baixas nas equipes. Como em toda epidemia de doença infecto-contagiosa, nem mesmo constantes cuidados preventivos evitam que o grupo que trabalha na linha de frente seja um dos mais atingidos – e uma tosse com febre baixa já tem o potencial de afastar um profissional. Afinal, ninguém quer virar veículo de transmissão do vírus, inclusive para outros colegas.

Formado na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), o infectologista Lucas Santos* (nome fictício) é gestor de um hospital geral que foi transformado em centro de referência para covid-19 em São Paulo. Ele diz que a principal queixa que tem ouvido nos últimos dias é exatamente a falta de recursos humanos, “buracos nas escalas de plantão da enfermagem sem ninguém para preencher”. O médico relata uma dificuldade que ele diz não ouvir nos noticiários: “muitas enfermeiras estão pedindo demissão porque não têm com quem deixar seus filhos. Perdi uma das minhas melhores profissionais, que é mãe, por causa disso. Todas as creches foram fechadas. Outra, que morava com os pais idosos, foi proibida pelos irmãos de voltar para casa, e está dormindo no carro, tomando banho no hospital… Quanto tempo ela irá aguentar? As autoridades simplesmente foram à TV, anunciaram que era quarentena e só iria trabalhar quem estivesse em atividades essenciais, mas esqueceram que alguém precisaria dar suporte para quem está nestas atividades”, reclama.

Foto: Agência Brasil

A médica intensivista e professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais, Patrícia de Faria, conta que, no Hospital Universitário onde atende, o quadro é intermediário. “Não há sobrecarga absoluta, mas certamente nos sentimos mais cansados”, diz. Profissionais deslocados de outros setores do hospital têm colaborado. Mesmo assim, já há na equipe muitos casos de burnout [esgotamento mental], depressão, ansiedade e pânico, entre outros problemas de saúde mental. “Entre nós intensivistas, há também uma autocobrança muito forte para que nossos pacientes tenham os melhores desfechos possíveis, e nem sempre é fácil equilibrar trabalho e vida pessoal quando se está responsável por vários pacientes muito graves.”

Aumento da demanda na rede pública
O clínico geral Fernando Vella, que se formou na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e atende hoje em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do SUS em São Paulo, conta que o movimento no local aumentou bastante após uma certa calmaria até meados de março. Segundo ele, logo que o vírus chegou ao País, as pessoas ficaram receosas de procurar os serviços médicos para casos menos graves. Nas últimas semanas, porém, com o fechamento dos serviços ambulatoriais do município como as Unidades Básicas (Ubas), a população que depende da saúde pública ficou bastante desamparada, “até para pegar uma receita de anti-hipertensivo ou um remédio para diabetes, o que é algo muito preocupante”, diz o médico. Assim, o refluxo de pacientes de outras doenças que não podiam mais esperar se juntou a uma explosão de casos de síndromes gripais, doenças com sintomas semelhantes aos da gripe mas sem diagnóstico confirmado.

Ele conta que, no dia anterior, em que estava planejada originalmente a entrevista ao Jornal da USP, não pôde falar porque ficou 11 horas seguidas atendendo. “Havia sete pacientes na sala de emergência, e os sete tinham quadro grave de coronavírus. Vários deles entubados porque tiveram uma piora drástica.”

Colapso iminente
Ter que escolher pacientes para receber o melhor tratamento por não haver recursos para todos, como visto na Itália, é algo pelo que nenhum profissional quer passar. Mas já começa a se tornar uma realidade cada vez mais provável. “Em situações onde o sistema colapsa a gente não tem condições de dar conta de tudo. Ainda que eu não trabalhe em emergência, e não pense tanto nisso, sei que preciso estar preparado para quando as coisas apertarem, e eu ter que atender num hospital de campanha, por exemplo. Enquanto categoria, a gente precisa discutir essas questões difíceis sim”, diz o médico de família Aristóteles Carmona, de Petrolina (PE).

UTIs do país estão no limite diante do crescimento da pandemia

“Acho que isso [ter que selecionar quem terá melhor tratamento] é quase iminente”, diz Fernando Vella. “O controlador de um dos hospitais para onde encaminhamos pacientes me ligou falando: ‘por favor, só me mande pacientes realmente muito graves porque estão acabando meus respiradores’. Mas eu não tinha opção: onde eu estava não tem UTI, e continuavam chegando pessoas. Já temos paciente alocado em sala de medicação, por exemplo. E mesmo que haja vagas nos hospitais de campanha, muitas vezes não há ambulância disponível para a transferência. Se eu tenho apenas uma ambulância, e ela leva alguém, só depois de três horas ela vai voltar, então fica difícil.”

O infectologista Lucas Santos também acredita que o sistema de saúde deve entrar em colapso em mais regiões. Ele diz que governos e a sociedade como um todo demoraram para se dar conta da gravidade da epidemia que já se anunciava, e atribui em parte a este motivo o fato de os serviços de saúde não estarem mais bem preparados. “Somente a partir do Carnaval foram tomadas medidas como abrir leitos, transformar enfermarias em UTI, adquirir mais respiradores. É muito difícil organizar uma estrutura assim, de uma hora para outra, em cima de algo que não existia”, desabafa o médico ao falar de um sistema público que já não operava em condições ideais antes da pandemia. “Onde atendo sempre existiu lotação, com quase todos os leitos ocupados. Muitos hospitais públicos, como a Santa Casa de São Paulo, já convivem com o colapso”, avalia.

A médica Patrícia Faria ressalta que a pandemia deve nos alertar para a importância do fortalecimento do SUS como uma política pública que precisa de mais apoio dos governos, e que a ciência e a pesquisa devem ser priorizadas. “O embate recente entre a área econômica e a de saúde é um desserviço para a população”, opina a intensivista.

A incerteza como rotina
Falando das dificuldades específicas da doença, Fernando Vella destaca o fato de não existir um protocolo unificado para o atendimento. “Cada médico acaba seguindo o que prefere. Eu sigo o do SUS, que os pacientes inclusive não gostam muito, porque ainda não há medicação que comprovadamente possa tratar o coronavírus. Então tratamos os sintomas”, diz. “Trabalhamos também com protocolos externos, e de redes particulares. Faz falta uma normatização mais clara do Ministério da Saúde, para nos sentirmos respaldados”, complementa Lucas Santos.

As dúvidas não se limitam ao tratamento: quadros que não se apresentam na forma típica também geram insegurança. “Já tive paciente que tinha apenas diarreia como sintoma, e fizemos um ultrassom de abdômen que acabou mostrando um pedaço do pulmão. E só por isso suspeitamos de uma pneumonia, que foi confirmada”, conta Fernando Vella. Em alguns casos, “o paciente vem muito bem e de repente piora muito rápido, em outros, eles reclamam de uma dor torácica bem mais acentuada do que vemos na pneumonia por outros agentes”, relata o médico, ressaltando que essas são apenas observações subjetivas, e não dados científicos. “A doença tem características próprias que ainda não estão muito claras.”

Embora quem trabalhe na área de saúde já esteja acostumado com a necessidade de sempre se atualizar, agora é ainda mais intensa a busca pelas informações mais recentes nas centenas de artigos científicos publicados todos os dias. “Tenho me desdobrado para achar tempo livre para estudo, revisão de literatura e capacitação. Alguns profissionais, além de atender, também têm se envolvido com pesquisas científicas”, conta a médica Patrícia Faria.

“Tiro pelo menos uma hora todo dia para acompanhar as novidades que têm saído em todos os lugares sobre a doença, e a gente discute isso bastante nos nossos grupos de trabalho. Há uma curiosidade intensa, que vejo como algo positivo”, diz o médico Aristóteles Carmona.

Medos
Num cenário de pandemia, o receio de se contaminar existe, mas nem sempre encontra muito tempo para ser cultivado. “É claro que a gente usa toda a paramentação, máscara, mas há um tanto de aceitar o que é meio inevitável, que eventualmente vamos pegar. Fiquei 11 horas num local em que todos os paciente tinham coronavírus e não estavam em isolamento, porque era uma sala de emergência comum do SUS. Acabava havendo dispersão do vírus no ambiente”, diz Fernando Vella, ao relatar que já houve baixas de colegas. “Felizmente não tive nenhum colega que foi a óbito, mas alguns já foram para a UTI”. O infectologista Lucas Santos diz que ele e sua equipe têm uma sensação parecida, mas tentam se focar no fato da maioria ser jovem e com boas condições de saúde. “Não tem outro jeito, né?”

Foto: Agência Brasil

Com a pandemia e o adiamento de cirurgias não emergenciais, o técnico de enfermagem Kim Ortiz viu o seu setor, de Clínica Cirúrgica, ser transformado para receber exclusivamente pacientes de covid-19. Ele, que trabalha no Hospital Santa Catarina, em São Paulo, acredita que, apesar de estar trabalhando dentro das regras de segurança e usando os EPIs, isso não garante uma proteção 100% eficaz. “Ainda mais quando comparamos aos EPIs que vemos sendo utilizados em grandes hospitais no exterior, com os quais nenhuma parte do corpo fica exposta”, diz, ao contar que as máscaras N95, que antes só podiam ser usadas por uma semana, passaram a ter que ser utilizadas por 30 dias.

Também preocupava o técnico o fato de, até o momento da entrevista, na semana passada, o hospital desaconselhar o uso de máscara pelos funcionários fora das enfermarias ou quartos de pacientes – nem mesmo a máscara cirúrgica, algo que a equipe não compreendia e questionava aos gestores. Poucas horas depois de falar conosco, contudo, ao chegar no plantão, ele mandou uma mensagem aliviado dizendo que a partir daquele dia o uso passou a ser adotado. “Onde trabalho já há muitos casos de profissionais que pegaram, mas pessoas jovens e fora de outros grupos de risco. Mesmo assim, todos temos medo. Uns demonstram mais, outros menos. Outros não demonstram nada, porém dá para ver nos olhos deles. Mas temos que encarar pois é a nossa profissão, então fazemos tudo com cautela, o máximo de cuidado possível”.

Mas talvez seja a família o principal foco de preocupação de todos que estão diariamente em locais onde há pessoas infectadas pela doença. Veridiana Chimirri é enfermeira de UTI neonatal no Hospital São Paulo, na capital paulista, e mora com sua mãe de 66, e seu pai, de 72 anos. Mesmo não atuando diretamente com pacientes de covid-19, ela passa o dia junto a profissionais que têm mais de um emprego, trabalhando em instituições com adultos portadores da doença. “No meu local de trabalho já tivemos afastamentos de funcionários, e sabemos que provavelmente eles ficaram trabalhando conosco por vários dias antes de começarem a ter sintomas. Por isso, até que passe o pior, aluguei um apartamento só para mim, e tenho colegas que fizeram o mesmo, pensando nos pais, sogros, ou filhos que são do grupo de risco para complicações. É um gasto que pesa, mas preferimos ter essa tranquilidade”, explica ela, e desabafa: “de heróis e anjos não temos nada, somos apenas profissionais honrando a profissão que escolhemos. Mas também temos nossos medos, e as pessoas precisam nos ajudar fazendo sua parte, por exemplo, respeitando o distanciamento social.”

O enfermeiro Tiago Ferreira, que atua no Samu da Baixada Santista, em São Paulo também se isolou de sua esposa, com quem é casado há 16 anos. No dia em que conversamos, inclusive, ele tinha acabado de se afastar do trabalho por estar com sintomas leves, e aguardava o resultado do exame. Ele sabe que os EPIs não conferem 100% de proteção, principalmente em se tratando de atendimentos de emergência. “Fazendo atendimento na rua ou em residências estamos mais expostos do que o pessoal em ambiente hospitalar, onde há desinfecção constante. A própria viatura, não dá tempo de higienizar da maneira ideal na correria dos atendimentos”, diz. O socorrista conta que só entre profissionais de saúde conhecidos seus na região já houve três óbitos. “Os meus 22 anos de profissão, sempre exposto a alguns riscos, me deram uma certa frieza, mas esta situação gera mais insegurança, até por ser uma doença nova”.

A dor do outro
Kim Ortiz diz que um dos aspectos mais difíceis para os pacientes é não poder receber visitas. Somente em alguns casos é liberado que fiquem com acompanhante fixo, como pacientes muito agitados ou totalmente dependentes. “Na verdade, nem nós podemos ficar muito tempo no quarto para ouvir o paciente – é entrar, fazer o que precisamos e sair, a fim de evitar a contaminação. Isso nos mata, pois a enfermagem é quem costuma estar mais com o paciente prestando todos os cuidados, o que inclui conversar e saber a história de vida dele”, diz o técnico. “Não parece nada com o que aprendemos na nossa formação, é tudo muito frio, robótico, uma outra realidade”, lamenta.

Ele lembra um caso específico que o marcou: uma gestante de 25 semanas, com suspeita de covid-19, que teve que fazer uma tomografia com contraste. “Esse exame deve ser evitado para não prejudicar o bebê. Ela estava desesperada, mas no caso dela precisava ser feito. E isso a abalou muito, e a mim também.”

Paulo Viana, que é fisioterapeuta e aluno de gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, está atendendo pacientes com covid-19 na enfermaria de um hospital em São Paulo. Ele também sente a dificuldade de não poder estabelecer uma relação mais próxima. “Costumo atender muitos idosos, um público com que gosto bastante de trabalhar, e estes pacientes têm suas peculiaridades. Eles precisam conversar, falar da sua vida, perguntar de nós. Não é só ir lá e fazer uma manobra ou passar um exercício”. O fato de estarem num ambiente em que há apenas pacientes de covid-19, os covidários, como são chamados, já é um pouco assustador para eles, e a falta dos familiares e a relação mais distante com os profissionais acaba pesando mais.

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